terça-feira, 27 de julho de 2010

passando batido

Era o ápice do inverno paulistano, o frio estava abaixo dos 15 há mais de uma semana e de madrugada a situação piorava. Eu, minha ruiva e a Lívia acordamos cedo e fomos até a casa da vó Tonha, tomar café com a véia. Ela fez bolinho de chuva, bolo de fubá e café forte! Ô véia sensacional! Que delícia de café! Depois do café, dei uma grana pra véia (bem mais que a aposentadoria que ela recebe), entramos no nosso carango zero bala e fomos fazer compras no Shopping Penha.

Perfumes, roupas, sapatos, tênis e o diabo-a-quatro. Depois das compras batemos um rango na praça de alimentação e voltamos pro carro pra guardar as compras. Ao sair do estacionamento ví 3 mendigos enrolados num cobertor fino, bêbados de cachaça, depositando no álccol a única alternativa de fuga da realidade. Uma realidade capaz de matar de frio os moradores de rua num inverno tão severo quanto aquele. Dei meia volta, guardei o carro na garagem do Shopping de novo, pedi pra minha preta ir passear com a Lívia enquanto eu ia até os mendigos, pra tentar fazer algo por eles.

- E ai meus senhores, o frio tá de matar hoje hein! Se vocês me permitem, eu queria ajudá-los.

- Ô filho de Deus, qualquer moeda já ajuda os véio aqui!

- Tá certo! Vou comprar comida pra vocês, pode ser?

- Pode filho! Deus te abençoe!

Colei num boteco, pedi 3 marmitex e um refri de 2 litros e entreguei pros senhores. Enquanto eles comiam eu pedi pra que eles não saíssem de onde estavam porque eu iria até o caixa eletrônico dentro do Shopping ver se tinha como eu pegar uns 10 conto pra deixar com eles. É óbvio que tinha, mas demonstrar ostentação nunca foi comigo, apesar dos 8 digítos na conta bancária.

Colei no Shopping, comprei 3 conjuntos de moletons e 3 cobertores. Antes de voltar pra rua, coloquei duzentos reais dentro do bolso de cada moleton e fui presentear os tiozinhos.

- E ai, deu pra bater um rango a pampa?

- Ô filho, deu sim viu! A gente até deixou um pouco pro nosso amiguinho aqui ó - falou um dos senhores e apontou pra um cachorro que estava comendo o resto de um marmitex.

- Pois é né! Tem gente que tem muito e joga comida fora. E quem tem pouco, sempre divide o pouco que tem! É na falta que a gente aprende a dar valor e dividir o que tem, né?

- Pois é filho! Quem nem sempre tem os 15 centavos do pãozinho diário, nunca vai deixar de dar valor pra nada e sempre estará disposto a dividir, porque se vê no lugar de quem tá pior (mesmo que seja um cachorro).

- É foda tio! Eu passei a maior parte da vida vivendo com muito pouco, agora tenho bastante dinheiro, mas preciso saber administrar pra não ir embora tudo de uma vez. Ó, comprei uns moletons e uns cobertores pra vocês ficarem a pampa nesses dias de frio. E aqui do lado tem um motel que cobra 20 conto por 3 horas dentro de um quarto, então vou deixar 80 conto com vocês, pra vocês entrarem lá no motel e tomarem banho, antes de usar os moletons novos. O que sobrar da grana, fica aí pra vocês comerem alguma coisa e tomar uma se o frio apertar. Se eu pudesse ajudava bem mais viu! Mas também não posso pagar de Deus, que daqui a pouco meu cascalho vai todo embora e eu ainda tenho uma família inteira na minha aba, além disso quero poder ajudar mais gente por esse mundão aí.

- Filho, você é um anjo! Deus te abençoe! A gente vai lá tomar um banho agora mesmo! Fica com Deus!

- Tô longe de ser anjo tio, mas tenho coração e uma cota de grana. Vão com Deus!

A realidade não é bem essa. Quase sempre que trombo uns moradores de rua, ao algum pedinte no caminho, tô na pior, com as moedas contadas pra pegar minha condução, ou sem nem um puto no bolso. É foda ver que sempre tem alguém numa condição muito pior do que a gente e ter que passar batido, sem poder esticar a mão com uma moeda que seja. Lá na quebrada é rotineiro ver menor abandonado, idosos de baixo de papelão, cachorro abandonado. Quem tá na rua vive numa pior, mas quem tem um abrigo nem sempre tá muito melhor. Um quarto de madeirite, cheio de goteira, na beira do esgoto, sem um rango no prato não é melhor que qualquer canto coberto em qualquer rua.

Se eu fosse endinheirado te ajudava tiozinho, com certeza! Se tivesse grana, meu porta malas sempre ia ter um rango e ração pra poder dar pra quem tá na rua com fome. Mas a real é que quase sempre tô com a grana contada e não tenho carro, nem com porta malas, nem sem porta malas.

É foda ter que passar batido.

3 comentários:

  1. É rasta, mais que batido, é foda sentir-se derrotado...
    Animal a cutucada textual.


    Abraço mano

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  2. Muito bom texto Vi, realidade deles e nossa. Oq na verdade é de todos nós.
    Muito bom.

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  3. Em uma das minhas andanças entregando rango pra eles, um me relatou:
    -"Antes de vcs aparecerem aqui, eu não acreditava em mais nada, não tinha mais vontade de viver. Mas dps que vcs começaram a vir aqui, eu creio que existe Deus, e todo dia oro e agradeço por estar vivo. Vcs são os "Anjos de Deus""!
    Quer felicidade maior que essa?
    :T

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